A Principal Fonte
60 bilhões por segundo

A maior parte dos neutrinos que nos atinge provém do Sol. A reação nuclear que produz esses neutrinos é a mesma que produz luz e calor nas estrelas, baseada principalmente na fusão de núcleos de hidrogênio para gerar os de hélio. Para cada dois neutrinos produzidos no Sol, uma diminuta parcela de energia (cerca de 25 milhões de elétrons-volt, sendo o elétron-volt uma unidade de energia muito pequena) é liberada. Lembrando que a distância da Terra ao Sol é da ordem de 150 milhões de quilômetros, pode-se estimar o fluxo de neutrinos solares que chega à Terra: cada centímetro quadrado da atmosfera terrestre é atravessado, por segundo, por cerca de 60 bilhões de neutrinos solares.

Efeito Urca

Por interagir muito pouco com a matéria, os neutrinos escapam rapidamente do interior das estrelas, drenando parte da energia produzida nas reações nucleares. Uma das formas de perda de energia pelas estrelas através da produção de neutrinos foi proposta na década de 1940 numa colaboração entre o físico brasileiro Mário Schenberg (1914-1990) e o russo George Gamow (1904-1968). Eles propuseram que núcleos do interior de estrelas supermassivas absorveriam elétrons e, com isso, gerariam neutrinos. Em seguida, esses núcleos ‘cuspiriam’ de volta a partícula absorvida, juntamente com um antineutrino. Esse processo acabou ganhando o nome efeito Urca, porque os neutrinos sumiam com a energia estelar, assim como o dinheiro sumia, na época, das mãos dos apostadores no famoso cassino da Urca, na cidade do Rio de Janeiro.

Chances mínimas

Observações pioneiras de neutrinos solares receberam o prêmio Nobel de Física 2002, dado ao norte-americano Raymond Davis Jr. e ao japonês Masatoshi Koshiba. O primeiro deles idealizou e construiu o experimento Homestake, que funcionou, entre 1970 e 2000, numa mina no estado de Dakota do Sul (Estados Unidos). Davis usou um tanque gigantesco, contendo 615 toneladas de moléculas cuja composição continha cloro (C2Cl4). Ao todo, no tanque, havia 1030 (o número 1 seguido de 30 zeros!) átomos de cloro. Com o choque de um neutrino energético, um desses átomos de cloro se transforma em argônio radioativo, que, com muito esforço e sutileza técnica, poderia ser detectado. As chances de ocorrer essas reações eram mínimas, mas não nulas. Foi nisso que Davis apostou.

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